domingo, 29 de julho de 2012

DEIXEI MEU SORRISO

Deixei meu sorriso
guardado, sob a chuva
repentina,
encostado ao muro de 
tua volta,
como se o bule,
os pães e a manteiga
embolorassem,
o café esfriasse,
a comida dos teus
dedos nascida
amainasse meu destino
e solidão.


Achei meu desatino,
à beira da tua volta,
plantei a tangerina
perfumosa no seu mar
de aromas,
e ao sol das tuas rosas,
ao pé do teu sorriso,
e para que o meu rosto
ganhasse a estrada
luminosa da tua volta,
voltei para tua casa
para ficar por ficar,
atrás da porta,
depois da escada,
ao lado dele,
que hoje nos vigia,
acendendo velas no escuro
de nossa saudades.


(Ele era o cão de guarda
e a mão que nos enxota,
afagando)

Atrás da porta,
depois da escada,
ao lado dele,
ao meu lado,
avó não esquece
a porta
e o trinco,
avó não esquece
que, com meu ossos,
mora,
e no jardins das suas novelas,
deixa as plantas por aguar,
as fofocas por fazer,
e a grinalda de minha mãe...


Consentir amando tudo,
quando tudo
que teus fornos
fazem são meninos e meninas
da vizinhança
da minha memória,
da permanência
da minha saudade,
dos cães que furam
os meus brinquedos,
do frango frito engordurado
pegajoso como um domingo,
ao teu lado.


E a boca fala
o que a mão esquece de escrever,
e o peito arfa
a minha avó
cuja vida
engana o pranto,
que é de parar
quando te encontro
sem nunca parar.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

LENDO OS POEMAS DE "A PEDRA..."




Pois bem, hoje se deu a primeira leitura dos poemas de "A pedra que o tortura", junto a uma turma bem legal na casa de Maína Mello, que ensinou sobre a relação entre filosofia, arte e astrologia. Plateia privilegiada! 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

CAÇAPALAVRASEMCONSTRUÇÃO


Caça ALGUNS links entre as palavras do poema "Construção":






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terça-feira, 17 de julho de 2012

ZODÍACO: POESIA SOB OS ASTROS

Áries: "Avisa aos mares que a viagem é de começo"


Touro: "A terra se reveste de voragem: permanece"


Gêmeos: "A foz do rio é uma promessa de afogamentos"


Câncer: "Tua vida se repete na chegada"


Leão: "Um anjo louro passeia: ilumina mais que a morte"


Virgem: "A ilusão da diferença"


Libra: "Onde o mar encontra o continente"


Escorpião: "Agora a noite cresce"


Sagitário: "Apenas à distância te reencontro"


Capricórnio: "No estômago ou nas pedras, há vida"


Aquário: "Do lado esquerdo do amigo, encontra-se a voz com que digo"


Peixes: "Deus consente"



ZODÍACO

Moram nos teus dias
contrações amarelecidas
de miragem, de procura,
pois a pedra que o tortura

é uma faca que, aderente,
faz morada nos dementes,
pelas pernas tateantes,
entre o ar e a terra, entre

a pomba, como névoa,
arrastada desde a entrega
d'água forte sobre a mina
tal qual potro galopante.

Sobem dos teus dias
os seios fartos, o leite quente,
e a flor estanque, a flor estante,
breve instante para o orvalho,
pó de abelha: teus desejos

mordem, voam teus abismos,
e os teus dias incluídos
são trincheiras de sorrisos,
planam moles, se aproximam
de um sono requerente:

sobre o móvel, sobre a ponte,
pulsa quente o sol de longe
é o meu rosto, o gosto-guia,
o Oxaguiã, a armadilha,
do teu dia ao meio dia.

A QUE MUNDO CHEGAREMOS AO SUL DE ANTARES

A que mundo chegaremos,
ao sul de Antares?

Sobre as águas, batem os remos
e os meus penares.

São de pedras as estrelas
destes lugares,

firmes, soltas, dizem sombra
aos céus e mares.

De que mundo fugiremos,
de que Martes?

Pois nas guerras desejemos
os acabares,

os acabares das muitas penas,
o fim das pazes,

como os sons que ouviremos
ao sul dos mares,

que abaixo das montanhas
se fazem lares,

dos meus peixes que se movem
como pares,

dos planetas com que valsam,
no sol dos ares.

Meus planetas como plantas
sobem em caules,

vão cortados das minhas sombras
dos meus pensares,

e dos pensares dos humanos
tão singulares,

vão queimados. Onde as copas,
onde as ramagens?

Meus planetas morrem plantas.
Os céus, sujastes...

Sem as sombras que teremos
ao sul de Antares,

a que mundo seguiremos
sem, Deus, estares?

ÁRIES

NO PRINCÍPIO era o Verbo,
e o Verbo estava com Deus,
e o Verbo era eu.

– Há muito barulho
no cerne de tudo.

Mas o Verbo se fez carne
e o espírito enlouqueceu.
Verbo morto emudeceu.

No princípio era eu.

No princípio era tudo:
no princípio era o mudo
da mudez que embruteceu,
pois quem manda já morreu.

No princípio era eu.

(Há mais derrotados
nos campos que bravos.)

No princípio era o forte
mas o Verbo se calou
e a derrota virou mote

do princípio sandeu.

No princípio era o forte
e o forte era eu.
No princípio, com Deus.

(No princípio fariseu
no princípio saduceu)

Há menos assuntos
que muros no mundo.

No princípio era o Verbo
e o Verbo estava com Deus
e o Verbo era eu.

O princípio morreu.

GRAU ZERO DE ARES

À sombra do começo
há pouca luz

há pouca luz
a luz
é não medida

e é pouca ainda
a cruz

A leste do começo
há pouco corpo

e o som é
sem endereço
explode o corpo

há pouco sopro

A luz do seu espelho
a pouca vida

o tempo, o desmereço
e o sem-saída
o pouco ainda

À leste do seu preço
há pouco

terço

o seu mês
de mereço
engana o meio

há pouco esqueço

Deus sem começo

ÁRIES (explicação do mito)

AMOLA tua faca
na pele flácida do cordeiro,


e o cordeiro sangra
pois que o sangue é o verdadeiro,


o derradeiro
grito da discórdia.


Amor: primeiro.


(Viver lá fora
sem outros meios para viver)


Onde ficou o velocino do cordeiro?


Quem o achou
já se perdeu no desespero.

SOL EM ÁRIES

UM ESPLENDOR de milharais,
o esplendor dos milharais
brilha no céu,

e os homens fazem
papagaios de papel,
pois é brincando
que se aprende a fazer planos.

Um herói decide procurar
o melhor lado,
esconde o peito sob o escudo
dos que morrem.

Está fadado a esperar
o crescimento
e a criança que morou nos seus
desejos,
gritar seu nome,
morrer mais cedo.

EQUINÓCIO DE PRIMAVERA

E A FLOR se perfaz do útero da terra,
aponta a mais escura dor da hera
e sobe, imensa, a nostalgia
da treva, que sustenta o dia,
e a flor no seu domingo.


E a flor entende,
e a primavera estende
a sombra por outras eras,
interiores eras


em que os amores
passam, ficam, secam...
e a caveira descarnada
espera os seus ausentes.

LUA EM ÁRIES

PORQUE tua face
é uma terra sem sementes
(trocaram as sementes
por umas pérolas pisadas),

avisa que o branco
desatado da tua casa
é uma cilada.

Avisa que o branco
em tornado se entorna
do vermelho das tuas costas
deste mar desabitado
que fumega da tua cama.

Avisa que o barco
no rochedo volteado
anda sempre ocupado,
pelo gosto das piranhas,
das sereias e afogados.

MARTE



PRIMORDIAL é amanhecer
o dia ou uma faca apontada contra o peito.



Não há outro jeito
senão viver
e matar o que nos mata
todo dia:


a falsidade


e a fantasia
dos covardes,
que ao seu lado
estão como um exército
de pulgas atrás da orelha.


Primordial anoitecer
certa amizade
e socorrer a quem se agrade
de viver


e socorrer a quem invade
- e não espalhe -
a solidão.

CLOWN

Enquanto um
urubu pousa
no teu peito,
é belo.

Sombra estranha e grave
do meu desejo.

Deita com teu corpo
e inerte aqui
sente o peso.
A faca fere o dorso
e o touro geme,
envolto.

Acalma a morte.

SOL EM TOURO

ESPERA A FLOR esperar seu dia,
abrir ardente o amor
que a pele inventa,
aguardar o mosto, o pão,
a música suave,
a voz do orvalho,
a preparação
dos filhos,
o desalinho dos lençóis
em companhia
do amigo,
a viração do corpo
em comparação
mais lenta.

Espera o sol do amor
rejeitar a noite,
encontrar tua casa
num mar
sem saídas,
como em
mil montanhas
suplicar teu nome,
esperando a fome,
esperando a vida,
suplicar teu nome:
gravidez perdida.

TOURO

MINAS GERAIS

O boi pousa as patas sobre o mundo,
como nós.
E não se esquece,
quieto e concentrado,
de sua tarefa azul
de mastigar o dia.

E com respiração rasteira
espera a morte:
a sempre-vida entre o chifre e as patas.

E há sobre a vida
e sobre o torso do meu boi,
que, sobre o campo,
mastiga a terra, o sol e as nuvens,
um touro intacto de ar.

E há sobre a vida,
entre o boi e a terra e pelas patas,
uma resignação voluntária
que mastiga os olhos,
invade e mata,
o sono bovino e o sono dos homens.

E há sobre a vida,
desde a cabeça até o começo do ar,
a fome que se embola, instala e mora
pela boca,
pela baba, pela boca, pela baba,
que a invoca.

E há sobre os chifres,
a dura vida que nos mastiga.
O boi selvagem, o boi das carnes,
o boi dos dentes, o boi das tardes.
O boi terragens, o boi da boca,
que esmiuça e umidece,
o sol das casas,
pela boca, pela baba,
pela baba, pela boca,
pela boca,
pela baba.

LUA EM TOURO

Não penes que a flor
se debruce sobre o seio.

Não penes a flor, seda fina
seda frágil, sobre a flor.

Não penses a mão derramada
sobre o corpo,
não a impeças, toca-a ao colo,
abrasa a mão,

contorna o braço,
descobre aqui o meu cuidado.

Não penes que a voz,
a grave voz, se debruce sobre o seio.
Sente a fina ponta
de sonho dos meus dedos.

Enquanto é flor, sê flor com o vento.

DEUS ME INDICA ALDEBARÃ

O caminho é o deserto.
Gira a rosa, pelos ventos,
ronda o Anjo: sete espadas entre o sol e a minha aldeia.

Deus me indica Aldebarã.

Escorpiões, cobras, espinhos,
moram por esses caminhos,
a morte adivinha meus passos, escondendo-os na areia.

Deus me indica Aldebarã.

O caminho é o deserto.
Levo o corpo e outros fardos,
água, preces, amor e guerra, sob a sombra da estrela.

Deus me indica Aldebarã.

Mas não vejo o que me mostra,
ficam os muros dos meus dias,
em redor da vida exposta em castelos de poeira.

MARIA TERESA HORTA

Ensinas que o pomo
e a semente
tão sem cuidados
não morrem,
pois aprendem
com os cardos
lições de pujança
e exagero,
que a calma é quente
e o sobre o peito
seio errante
nascem flores
de anteontem

da memória
ao mais poder.

TOURO

DEITADA
em seu belo
trono branco,
navega Europa,
carrega Europa,
caminha Europa,
se bebe Europa.


Deitada em seu pelo forte, branco, 
firmada Europa, 
sem vício, Europa,
escolhe, Europa,
teu macho, Europa.


Deitada sobre o corpo belo branco,
amada Europa,
virada Europa,
tornada Europa,
fendida Europa. 


Rachada em seu doce amargo branco,
desata Europa,
ingrata Europa,
molhada Europa,
já seca Europa.

TOURO (explicação do mito)

POR ESTUPRO ou sedução 
o céu abraça a terra. 
É uma chuva que deleita 
os seus prazeres 
de macho 
em destruir o que passeia. 


Por estupro e por mil mãos,
 por mil árvores, abelhas, 
olhos, portos, pênis, veias,

há milagres de açafrão. 


É o mistério dela fêmea enfim detida: 
sem desejo de morte, sem desejo nas ruas, sem descanso nos quartos, sem refúgio nas             .                                       [telhas nem no amargo guarda-chuva do perdão.                                                                                                          




Aguardo vida.

OXUM

Não tem perdão
viver sem vida.

Será por isso
que todos morrem?

O que é natural a água escorre
e é natural que a água escorra.

É aceitável que a floresta faça barulho
e leve seus recados nas muitas folhas,
que haja flores se repetindo
sem nunca serem a grande Flor original.

É desejável que o corpo se deite após o assalto
e se desfaça depois do parto
e não se esqueça do que a noite de longos meses lhe preparou:
maçãs sem culpa,
depois da dor.

É natural
e faz sentido
a foz de amigos
que desemboca do rio antigo,
que muitos homens já mastigou.

Já mastigou, já abraçou
pois não sabia que coisas bobam levavam nome,
quando de amor chamava fome
e só de fome chamava amor.

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