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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

CERTEZA

CERTEZA


(para Maria Teresa Horta)


Haverá sempre

a nuvem depois

do monte?


Cantará sempre

o pássaro

na madrugada?


Estará desde

a lua o céu

disposto?


Girará com

ternura a terra

grada?


(Anunciastes, anunciais

a forma definitiva

destes sinais.


E cantando, cantareis

a ida e a volta

das mesmas leis)


Haverá sempre

o monte, depois

a nuvem,


madrugada

cantada de

muitos pássaros.


Do luar

se fará o

céu que surge,


desta terra,

o tapete

dos nossos passos.

"Estou atrás dos meus olhos"

Estou muito atrás dos meus olhos,

e os rios correm sós.


Rodeados de ar, conhecendo as pedras,

embalando os peixes, os que são nominados,

os que acenam sós, desde a árvore de onde

começaram sós,

os que vivem sós,

muito sós.


Quem nunca viu um rio como o meu

embaixo das minhas pedras.


Não há ponte.

Enquanto há terra, não há ponte.

Não há ponte no fundo do rio.


Estou muito atrás da minha mão,

e os rios correm sós.


Rodeados de ar, conhecendo as pedras,

são as águas que embalam os peixes,

e afogam o horizonte, que se deita

no rio

e levanta sua fronte, sob o céu que é o céu

de todos os homens,


sobre as campinas de todos os homens.

PEIXES (explicação do mito)

PEIXES


(explicação do mito)


Sinto o que sentem

todos os mortos,

sem saber, sem dizer

o que de morto dizem os mortos:

apenas humilde o corpo inerte tenta

mover-se na eterna torrente

de sonhos, desejos, falas,


beijos.


Rezem por mim,

que lhes direi no mesmo instante

de que é feito o mundo inteiro, antes,

e, mesmo morto, apontarei

em que altares jazem os deuses firmes

soltos,

os anjos livres e os homens tortos.

"O obscuro poema"

O obscuro poema

que cresce

da ponta dos

meus dedos


é o ovo plácido

de uma galinha

d'Angola,


é a memória

do morto

adivinhado

atrás da porta,


é o desenho

antigo

que a verdade

desaprova,


é o boi

e o esteio

que a campina

ignora:


palavra

de estorno

ponta

de corno

e chá

de losna.

MARTE EM PEIXES

MARTE EM PEIXES


(para Helaine Christian Alves Santos)


QUEM trouxe o mar de dentro,

separa o mar

do mar de dentro,

e o mar do mar, embora

havendo

ondas de arrasto,

montanha acima

por caminhar.


Quem trouxe o mar no anzol

separa o mar

do toldo-sol,

e da lua que toldava

os velhos medos,

o mal dos homens,

os seus segredos

de peixe e sal.


Quem trouxe o mar sem ponte

(trabalho antecipado

nos cinco dedos

do horizonte)

deitou mais cedo,

como água seca

se abandonou:


nos claros montes

do desagravo

entre o oceano

e o mar de agora,

quem trouxe o mar de engano

prepara a volta

ao mar sem porta

que o retornou.


Um monturo inerte

de mar moído

na foz mexida

do mar moído

sussurra medos

de voz salina,

qual dez gigantes

olha pro mar.


Quem trouxe o mar mais cedo,

soube do segredo

do sal que corre

no sangue azul

do seu invento,

pois trouxe o mar

da estrela Vésper,

ao sol que morre.

Ondas de arrasto

por caminhar.

PEIXES

PEIXES


HÁ uma corda

estendida sobre

as horas

como ponte.


Eu, que sonâmbulo

andava

sobre o abismo,

escorreguei.


(Deus me perambulava)


E a corda amarga

vai presa ao pé,

vai presa à nuvem

morar no norte

de quem voltava.


(Deus me perambulava)


Modo da nuvem

no fundo era

um pedreira,

um mausoléu:


pela fronteira, nada.


E a corda amarga

e a ponte larga

meus pés agradam.

Deus ao pescoço deu


lição de águia.

ÁGUA

ÁGUA


Não foi o óbvio que desagrada

nem o moreno mal preparado

não foi o pardo, não foi o cardo:

era uma pedra que afundava.


E seu mergulho de ave inerte

achou seu flerte no espelho d‘água.

Bico ligeiro. Ponte mais larga...

Um peixe treme como palavra.

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